Entre as supostas irregularidades estão falta de aprovação da viagem pelo plenário e inconsistência entre as despesas registradas; Câmara e vereador negam falhas, que foram apontadas por moradores ao MP
Julio Codazzi / Gazeta de Taubaté
julio.codazzi@gazetadetaubate.com.br
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Um grupo de moradores de Taubaté protocolou uma representação para pedir que o Ministério Público investigue supostas irregularidades em uma viagem oficial feita em julho pelo vereador Jessé Silva (SD), que teve como destino a cidade de Mariana, em Minas Gerais.
Uma das falhas apontadas tem relação com o requerimento apresentado pelo parlamentar para que a viagem fosse autorizada – segundo ato interno de 2015, viagens para fora do Estado precisam ser aprovadas em plenário.
Segundo o sistema da Câmara, o requerimento 1349/2017 foi apresentado por Jessé no dia 26 de junho. O texto consta como “lido e aprovado” na sessão realizada no mesmo dia.
No entanto, a gravação da sessão mostra que o requerimento não foi lido e nem votado na sessão. O último requerimento citado foi o de número 1345/2017.
DESPESAS/ A denúncia, apresentada pela Amatau (Amigos Associados de Taubaté), também questiona os gastos com a viagem.
Segundo o requerimento, a viagem teve início no dia 14 de julho, uma sexta-feira, com retorno dia 16, um domingo. O objetivo era participar do aniversário da cidade mineira.
Jessé foi acompanhado de um motorista da Câmara e de um assessor. Cada um dos funcionários recebeu R$ 919,10, equivalente a cinco diárias de R$ 183,82 (nos dias em que há pernoite, a diária é paga em dobro). Já o vereador recebeu R$ 430,93 para ressarcir despesas com alimentação.
No entanto, embora a viagem conste como iniciada na sexta e finalizada no domingo, a Câmara fez apenas dois pagamentos de R$ 130 ao Minas Hotel de Mariana, totalizando R$ 260.
A reportagem apurou que o hotel tem três diferentes tarifas aos fins de semana: R$ 115 por um quarto com uma cama, R$ 185 para duas camas e R$ 245 para três camas. Esses valores são por dia.
Na Câmara de Mariana, a única menção à visita é uma notícia do sábado, dia 15 de julho.
A denúncia cita ainda que a viagem de Jessé a Mariana foi a vigésima sexta realizada pelo vereador apenas esse ano, totalizando R$ 5.575,62 em despesas pessoais.
Os moradores também questionam quem pagará pelo conserto de três rodas do carro, que ficaram avariadas após um acidente na viagem. O custo não foi identificado.
OUTRO LADO/ Procurada pela reportagem, a Câmara alegou que o requerimento foi registrado na ata da sessão do dia 26 de junho, e que a leitura só é feita de requerimentos em destaque.
O Legislativo afirmou ainda que a viagem respeitou “as normas legais vigentes” e que o hotel cobrou apenas diárias de R$ 130.
O jornal questionou o vereador se o grupo ficou hospedado no hotel de sexta a domingo, mas não houve resposta. Jessé se limitou a dizer que todos “os procedimentos questionados foram feitos dentro dos trâmites legais, com autorização da Câmara”.
O parlamentar alegou também que a viagem traz benefício cultural e histórico para Taubaté, já que os municípios são coirmãos e há “tratativas para estabelecermos um intercâmbio cultural e artístico entre as cidades”.
A entrevista com Jessé foi feita por e-mail, já que o vereador está em Porto Alegre para participar de um congresso, em sua vigésima sete viagem no ano. Essa viagem para o Sul teve início na quarta-feira, dia 23, e segue até domingo, 27. A Câmara irá pagar passagens aéreas (R$ 739), hospedagem (R$ 552), inscrição (R$ 600) e despesas com alimentação (até R$ 1.102,92).
Legislativo negou acesso a dados sobre viagens dos parlamentares
No fim de junho, a Câmara de Taubaté negou pedido feito pelo jornal para ter acesso aos processos administrativos referentes às viagens realizadas pelos vereadores nos primeiros cinco meses desse ano. A solicitação havia sido feita com base na Lei de Acesso à Informação, criada em 2011 para garantir transparência na administração pública. Os processos contêm toda a tramitação de cada viagem, como pedido de autorização, relatório e as notas fiscais apresentadas para requerer o ressarcimento de eventual despesa. A Câmara alegou que a divulgação dos dados poderia expor a privacidade dos vereadores.

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